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A forma e o seu contrário

O cristalino é uma das mais curiosas categorias românticas. Implica um fascínio pela ordem que nasce a partir da entropia da natureza, a convicção de que existe uma razão que pode nascer, de forma espontânea, a partir da desordem do mundo. Os românticos do século XIX ligavam esta teoria da ordem ao cristal, metáfora absoluta e translúcida do rigor cifrado da natureza, que em código se exprime na perfeição da estrutura.

Embora o desenvolvimento da ideia de perfeição cristalina tenha vindo a desenvolver-se nas direcções mais problemáticas (desde Heliopolis, de Ernst Junger, à directa metáfora politica do Reich), o que é certo é que, por motivos opostos, também veio a fascinar artistas contemporâneos -- o exemplo mais profícuo será, porventura, Robert Smithson e a sua versão do cristalino como uma doença entrópica.

A Casa da Música, na arquitectura de Rem Koolhaas, pertence a esta categoria do cristalino. A determinação da estrutura sobrepõe-se à ductilidade do corpo, nomeadamente porque a matéria flexível que se propõe albergar é o som. O som é vibração, é viral, atravessa o espaço e reage com as suas componentes físicas, com as paredes, com a estrutura, com os corpos. Nesse sentido, a casa da música é uma estrutura cristalina na entropia do espaço urbano, mas é também uma estrutura interior dura na qual a mobilidade do som constitui a metáfora do orgânico.

O projecto que Fernanda Fragateiro propõe para a Casa da Música parte exactamente de um entendimento dessa relação entre o corpo e o seu abandono, por um lado, a estrutura e a violência do seu rigor, por outro.

Assim, na sua relação com o espaço da Casa da Música, Fernanda Fragateiro decidiu instalar um conjunto de redes de descanso, vermelhas, que podem ser usadas pelos visitantes. As redes são dispositivos leves e moles, flexíveis e adaptáveis. São, também formas muito elementares de mobiliário, quase implicando uma leitura etnográfica da sua presença: é inevitável lembrarmo-nos dos índios da Amazónia, de uma ideia difusa de lazer, mas também das explorações propostas por Hélio Oiticica para o envolvimento do espectador no usufruto da obra de arte, como fez a partir do projecto Tropicália, de 1967, ou -- o que, aliás, constitui a referencia fundamental de Fragateiro, -- o projecto do arquitecto brasileiro Lúcio Costa intitulado Riposativi, apresentado na XIII Trienal de Arquitectura de Milão. Nessa exposição o Pavilhão do Brasil foi usado pelo arquitecto como uma câmara de repouso onde redes, à disposição do visitante, podiam ser livremente usadas pelo público. Esta intervenção foi essencial para a primeira utilização de redes de repouso pela artista que apresentou, numa exposição em Lisboa a intervenção Só é possível se formos 2, que consistia numa estrutura que suportava duas redes passíveis de serem usadas pelo público. A rede surgia, assim, como uma possibilidade de envolvimento do espectador transformado em usufrutuário de um dispositivo, mas também como marca humana, confrontando-se com a herança modernista do desenho e do plano.

Dito de outra forma, a rede para descansar é uma metáfora do corpo, o mais leve suporte possível para um casulo de recolhimento e abandono ao peso, já que a rede e a sua adaptação ao corpo são um resultado da gravidade, da inexorável atracção dos corpos pelo chão. É, portanto, um curioso dispositivo paradoxal, na medida em que concilia a ilusão da flutuabilidade no espaço com a sua adaptabilidade ao corpo movida a peso e massa.

Podemos, ainda, estender um pouco mais a relação da massa como estruturação da rede: de facto, a rede em si, não possui qualquer forma senão a da possibilidade de se adaptar ao corpo e, nesse sentido, ela constitui o oposto da ideia de cristalino – é uma pele, um envoltório, um saco a preencher pela preguiça do corpo submetido à força que o atrai para o chão -- e é curioso observar como as metáforas da corporalidade usam sistematicamente o peso, como acontece com a ideia de “queda no pecado” ou de “cair em si próprio”.

Dito desta forma compreende-se que o projecto de Fernanda Fragateiro, a sua forma de responder à arquitectura cristalina da Casa da Música, foi a de procurar o seu contrário -- e o seu contrário reside no corpo, através da marca da sua ausência, ou da sua possibilidade.

Do exterior, do espaço da rotunda, pode-se ver a nova paisagem fluida das redes que ocupam o corredor nascente, também ela uma paisagem invertida, virada para o interior.

Trata-se, enfim, de uma reinvenção da casa a partir de uma pele. E esta pele, no seu recolhimento, dá-se como uma paisagem para os outros. Como sempre.


-- Delfim Sardo

Outubro de 2007

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