Investigação da Pergunta e do Objecto
Noémia Coutinho e “Uma Escola de Iniciação de Arte”
Solo exhibition, CAAA, Guimarães, 2026
Curated by Paula Pinto










Investigação da Pergunta e do Objecto constitui-se como uma oportunidade para estudar e recriar a singularidade da obra de Noémia Coutinho, através do olhar, pensamento e criação de Fernanda Fragateiro. A atenção social, política e estética que caracteriza o trabalho de Fernanda Fragateiro, torna esta oportunidade dupla e complementar: amplia o seu campo artístico, associando-o a um exemplo singular da arquitetura portuguesa da segunda metade do séc. XX, e proporciona visibilidade a uma arquiteta que continua a ser amplamente desconhecida.
São variados os exemplos de obras que Fragateiro criou a partir de arquitetas do séc. XX como Alison Smithson, Charlotte Perriand, Denise Scott Brown, Eileen Grey, Lilly Reich, Lina Bo Bardi ou Lotte Stam-Beese, que só numa história mais interseccional, foram amplamente reconhecidas pelos seus projetos. Durante muito tempo, estas arquitetas foram olhadas à sombra da colaboração com gabinetes dirigidos por arquitetos ou simplesmente ignoradas por uma história ainda profundamente subserviente ao poder.
Pouco conhecida mesmo no meio arquitetónico, a Escola Artística do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian (Aveiro) foi recentemente lembrada a propósito da exposição “Sala de Aula, um olhar adolescente” (2022-23).
Uma procura de documentação sobre o projeto da Escola Artística do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian (Aveiro), construído entre 1967 e 1971, conduz-nos ao gabinete de arquitetura GALP (Porto), de José Carlos Loureiro e Luís Pádua Ramos e ao Concurso para a Obtenção do Diploma de Arquiteto (CODA), de Noémia Coutinho.
Foi com o projeto de “Uma Escola de Iniciação de Arte” que Noémia Coutinho defendeu o CODA, avaliado pela Escola Superior de Belas Artes do Porto com a classificação de 20 valores. O documento do CODA permite o acesso a uma reflexão ética, pedagógica e social sobre a determinação da função da escola. O reconhecimento da importante participação de Noémia Coutinho neste projeto, tem permitido descobrir uma linguagem arquitetónica mais preocupada com o "ser-se humano". Noémia Coutinho interroga e reconhece a importância da pergunta na espontaneidade proposta pelo projeto arquitetónico:
Interessando-se pelos vazios e contraditórios da história, particularmente pela equidade de género, a obra de Fernanda Fragateiro desenvolve releituras críticas das práticas arquitetónicas desenvolvidas no contexto artístico e cultural do moderno internacional. É neste enquadramento que a artista ativa a experiência desta Escola de Iniciação de Arte, com mais de meio século de existência. Trabalhando sobre as ausências deixadas pelos designados métodos científicos de documentação, envolvendo transversalmente comunidades usuárias marginalizadas da linguagem do projeto e procurando inscrever as suas vozes nos lugares da experiência, Fragateiro mobiliza e empodera o dispositivo da exposição como ferramenta para uma arte mais coletiva.
Para esta artista, a interrogação é um campo aberto que não pode deixar de ser reivindicado. A linguagem que Noémia Coutinho utiliza no CODA relaciona-se diretamente com os habitantes do lugar e o espaço mantém-se lá para seu usufruto quotidiano. Em vez de selecionar um espaço onde o nome de Noémia Coutinho fosse inscrito à semelhança dos restantes, Fernanda Fragateiro propõe inscrever uma seleção de frases, retiradas do CODA, em lugares estratégicos, a identificar com a comunidade escolar. A artista evidencia assim um documento em que a voz de Noémia Coutinho está indiscutivelmente inscrita, apesar do peso institucional dos processos burocráticos e do poder estatutário continuarem a servir apenas uma determinada narrativa histórica.
Uma dessas frases: “as minhas mãos são minhas”, está igualmente presente e em evidência, na exposição no Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura. Para Guimarães, Fernanda Fragateiro selecionou ainda três elementos: uma secção das vigas de betão armado que desenham e sustentam o hall [hoje designado sala polivalente], o candeeiro de madeira e acrílico desenhado para estas vigas, e um dos candeeiros desenhados para a sala-convívio, que tem por peça central uma lareira com um friso cerâmico de Júlio Resende. Utilizando o mesmo material para todas as peças – contraplacado de choupo –, Fernanda Fragateiro recria estas formas e objetos à escala 1:1, mas sem os replicar, devolvendo-lhes um cunho de maqueta que abre um novo fôlego para uma investigação da pergunta e do objeto.
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Paula Pinto [excerpts from the catalogue text]
São variados os exemplos de obras que Fragateiro criou a partir de arquitetas do séc. XX como Alison Smithson, Charlotte Perriand, Denise Scott Brown, Eileen Grey, Lilly Reich, Lina Bo Bardi ou Lotte Stam-Beese, que só numa história mais interseccional, foram amplamente reconhecidas pelos seus projetos. Durante muito tempo, estas arquitetas foram olhadas à sombra da colaboração com gabinetes dirigidos por arquitetos ou simplesmente ignoradas por uma história ainda profundamente subserviente ao poder.
Pouco conhecida mesmo no meio arquitetónico, a Escola Artística do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian (Aveiro) foi recentemente lembrada a propósito da exposição “Sala de Aula, um olhar adolescente” (2022-23).
Uma procura de documentação sobre o projeto da Escola Artística do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian (Aveiro), construído entre 1967 e 1971, conduz-nos ao gabinete de arquitetura GALP (Porto), de José Carlos Loureiro e Luís Pádua Ramos e ao Concurso para a Obtenção do Diploma de Arquiteto (CODA), de Noémia Coutinho.
Foi com o projeto de “Uma Escola de Iniciação de Arte” que Noémia Coutinho defendeu o CODA, avaliado pela Escola Superior de Belas Artes do Porto com a classificação de 20 valores. O documento do CODA permite o acesso a uma reflexão ética, pedagógica e social sobre a determinação da função da escola. O reconhecimento da importante participação de Noémia Coutinho neste projeto, tem permitido descobrir uma linguagem arquitetónica mais preocupada com o "ser-se humano". Noémia Coutinho interroga e reconhece a importância da pergunta na espontaneidade proposta pelo projeto arquitetónico:
“Por que se manda uma criança para a escola? (...) A criança não é um recipiente passivo de conhecimentos a preencher; é algo que aprende tanto mais depressa, quanto mais activamente lançado na investigação da pergunta ou do objecto (...)”
Interessando-se pelos vazios e contraditórios da história, particularmente pela equidade de género, a obra de Fernanda Fragateiro desenvolve releituras críticas das práticas arquitetónicas desenvolvidas no contexto artístico e cultural do moderno internacional. É neste enquadramento que a artista ativa a experiência desta Escola de Iniciação de Arte, com mais de meio século de existência. Trabalhando sobre as ausências deixadas pelos designados métodos científicos de documentação, envolvendo transversalmente comunidades usuárias marginalizadas da linguagem do projeto e procurando inscrever as suas vozes nos lugares da experiência, Fragateiro mobiliza e empodera o dispositivo da exposição como ferramenta para uma arte mais coletiva.
Para esta artista, a interrogação é um campo aberto que não pode deixar de ser reivindicado. A linguagem que Noémia Coutinho utiliza no CODA relaciona-se diretamente com os habitantes do lugar e o espaço mantém-se lá para seu usufruto quotidiano. Em vez de selecionar um espaço onde o nome de Noémia Coutinho fosse inscrito à semelhança dos restantes, Fernanda Fragateiro propõe inscrever uma seleção de frases, retiradas do CODA, em lugares estratégicos, a identificar com a comunidade escolar. A artista evidencia assim um documento em que a voz de Noémia Coutinho está indiscutivelmente inscrita, apesar do peso institucional dos processos burocráticos e do poder estatutário continuarem a servir apenas uma determinada narrativa histórica.
Uma dessas frases: “as minhas mãos são minhas”, está igualmente presente e em evidência, na exposição no Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura. Para Guimarães, Fernanda Fragateiro selecionou ainda três elementos: uma secção das vigas de betão armado que desenham e sustentam o hall [hoje designado sala polivalente], o candeeiro de madeira e acrílico desenhado para estas vigas, e um dos candeeiros desenhados para a sala-convívio, que tem por peça central uma lareira com um friso cerâmico de Júlio Resende. Utilizando o mesmo material para todas as peças – contraplacado de choupo –, Fernanda Fragateiro recria estas formas e objetos à escala 1:1, mas sem os replicar, devolvendo-lhes um cunho de maqueta que abre um novo fôlego para uma investigação da pergunta e do objeto.
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Paula Pinto [excerpts from the catalogue text]
Photos: Fausto / Ivo Rainha
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